A pedagogia Montessori e o modelo Reggio Emília

arte

O modelo pedagógico da cidade de Reggio Emília na Itália vem sendo exemplo de excelência em educação no mundo inteiro há muitos anos. Esta fama começa efetivamente em 1991 quando uma das principais revistas de peso nos Estados Unidos  a “Newsweek Magazine” declarou  Reggio-Emília como melhor modelo de educação infantil “best Early Childhood Education” .

A forma Reggio-Emília de educação hoje é composta por 13 creches, 22 escolas infantis e uma escola de ensino fundamental (até o 4. ano)

Qual a concepção de Reggio?

O aspecto mais especial de Reggio-Emília é sem dúvida nenhuma, a mentalidade de que a educação das crianças é tarefa de todos. De todos os cidadãos e não só da família!

Mas como se dá esta participação direta de todos os cidadãos na educação das crianças da cidade?

Reggio hoje é uma cidade de aproximadamente 170.000 habitantes. O processo de participação da população na educação das crianças, se dá de forma democrática direta, através de reuniões em praça pública. De tempos em tempos a comunidade de Reggio promove um encontro de cidadãos (qualquer pessoa pode inscrever-se para participar), juntamente com  educadores, professores e políticos locais, para pensar, discutir e decidir diretrizes, o que seria importante que as crianças da cidade soubessen. Estas opiniões são documentadas e inseridas oportunamente no cotidiano das crianças.

Mas por que a cidade de Reggio-Emília escolheu esta forma de trabalho?

especialmente por causa do contexto histórico da cidade. A Itália da segunda guerra era dominado pelo fascismo. A cidade de durante toda a guerra sempre assumiu uma postura contra o regime político ditatorial fascista. A cidade como muitas outras durante este período, foi levada à miséria sendo invadida, saqueada e perdendo boa parte da sua população, principalmente os homens.

Quando a guerra terminou e o regime fascista caiu, chegara a hora de reconstruir a cidade. As mulheres reggianas então, vendo a catástrofe deixada pela guerra, organizaram-se e decidiram  que as crianças deveriam receber uma educação que as permitissem aprender a pensar, uma educação para a liberdade e que abrisse espaço para uma consciência sóciopolítica! Uma educação para que nunca mais se acreditasse em oportunistas fascistas, que levassem à destruição da sua alma, à morte sem sentido e à destruição da cidade!

Dada a organização das mulheres e a tendência política progressista já existente na cidade, a proposta educacional das mulheres reggianas foi aceita. Em 1945 foi criado oficialmente a primeira escola de educação infantil da prefeitura da cidade. Neste momento nasce a educação Reggio-Emília!

Este marco foi muito significativo dado que até este ponto, a educação infantil da cidade era de domínio exclusivo da igreja católica.

Mas como se daria na prática esta educação?

As mulheres de Reggio não conheciam teorias pedagógicas na época na qual elas pudessem se orientar. Lembrem-se que o modelo Montessoriano havia sido banido das escolas italianas logo no começo do regime fascista! Montessori foi levada ao exílio e suas poucas escolas, casa dei bambini, foram fechadas, pois sua proposta de paz e liberdade não condizia com o regime ditador italiano.

À princípio as crianças na cidade de  Reggio Emília eram educadas pelas mulheres da cidade através do bom senso. Professoras, educadoras e mães, tentavam dar vida, concretizar aquele novo ideal de educação. Com o passar dos anos, o processo pedagógico foi amadurecendo, foram vindo professores de outras cidades. Em 1956 chega o hoje conhecido Loris Malaguzzi. O jovem professor de matemática, já envolvido com os princípios do movimento da chamada “reforma pedagógica” da época, a qual envolvia entre outros, também os princípios montessorianos, se encantou pela proposta de Reggio. À partir da década de 70, Malaguzzi tornou-se a figura simbólica da educação de Reggio Emília.

Quais eram os princípios pedagógicos de Reggio, espelhados na grande reforma pedagógica da época, dentre elas os princípios montessorianos?

  • A criança era o centro da pedagogia. Ela era a protagonista! Ela mesma indicava o que e quando precisava aprender
  • O professor/educador passava de protagonista para acompanhante. O adulto ajudava o processo de aprendizado ditado pela criança
  • A criança era educada para ser independente
  • O ambiente preparado, como inspiração, influenciador direto do aprendizado da criança.
  • Educação para a paz e respeito à natureza

Estas são as colunas da pedagogia de Reggio, exatamente espelhadas nas colunas da pedagogia Montessoriana.

Outros aspectos também são os mesmos dos montessorianos:

A cooperação entre família e escola, os direitos: todos tem os mesmos direitos: o educador, a família, a criança. Cada um tem seu papel e ao mesmo tempo todos tem o mesmo valor. Não há uma hierarquia como antes, onde a criança era submissa ao adulto. Não há submissão, há respeito mútuo e cooperação.

Já o que muda em Reggio é a proposta muito forte  de conscientização sóciopolítica, assim como  o caminho com o qual estes princípios são postos em prática.

004520Em Montessori a conscientização sóciopolítica existe, mas não está tão em primeiro plano. Montessori no seu trabalho diário com a criança, se concentra no aspecto social entre a família e a escola. A criança deve ser educada para ser independente, livre, socialmente útil, primeiramente no seu meio.  É ressaltado também a paz e o respeito para com a natureza .

Em Reggio o aspecto político  é vivido mais intensamente, devido ao contexto histórico da cidade, como já foi citado acima. Não deixando de acrescentar todos os outros aspectos citados acima também.  Reggio e Montessori se entrelaçam constantemente!

O caminho concreto de Montessori era primeiramente desenvolver a organização interna do pensar infantil, facilitar o processo de concretização do pensamento desta e proporcionar sua independência através do ambiente preparado e dos materiais criados por ela. O sistema do material montessoriano é sempre organizar, selecionar e aprender.

Já em Reggio, foi escolhido o caminho do ensino pela Arte. Um ambiente preparado que favorizasse um aprendizado através da arte, nas suas diferentes formas.

Comparando a estrutura das instituições reggianas e montessorianas de hoje na prática!

Na instiuição tradicional Montessori há sempre 2 profissionais por sala de aula. A criança aprende individualmente ou em grupo sobre determinado tema, nos primeiros anos  com materiais montessorianos. O ensino é principalmente individual. A criança é livre para escolher onde, o que e com quem trabalhar.

O clima é de absoluto respeito mútuo entre profissionais e crianças. Não há chefe e subordinado, há regras para o bom funcionamento do trabalho e o respeito do direito do próximo. O ponto forte é a educação para a paz  e o respeito para com a natureza no seu trabalho diário!

No dia a dia, a alimentação é de grande importância para Montessori. A hora da refeição é uma hora central para o encontro de adultos e crianças. A participação ativa das criança é constante. Colocar a mesa, servir-se ou servir aos colegas, comunicar-se, tudo pode ser incluído.

Em Reggio: há 2 profissionais por sala de aula e mais um artista plástico ou músico profissional, trabalhando em condições de igualdade com o educador/professor. A idéia é que o artista profissional tem um olhar diferente, que pode contribuir especialmente para o aprendizado da criança.

Arte é em primeira linha, desenvolver a fantasia. A arte é  o caminho para diferentes formas de comunicação, e é imprescindível para o desenvolvimento intelectual e emocional do ser humano.

A cozinheira,  a alimentação também é de suma importância para Reggio e tem um lugar ainda mais especial na sua pedagogia. A criança é livre para ajudar na cozinha sempre que quiser. A cozinheira tem o mesmo status que os professores e educadores. Ela ensina sobre alimentação, sobre preparação de alimentos, sobre organização de uma cozinha, ajuda a desenvolver a coordenação motora das crianças e ensina sobre saúde! As pessoas da limpeza também ensinam as crianças. Elas falam sobre higiene, sobre produtos de limpeza, sobre cuidados consigo mesmo e com o meio em que se vivem!

Todos educam, todos contribuem, todos são importantes! Todos participam de cursos de aperfeiçoamento regularmente!

Tanto em Montessori quanto em Reggio são recebidos profissionais de diferentes áreas como visitantes, para ajudar e contribuir com os  projetos das crianças. Estas visitas podem ser de horas, dias ou até de semanas. Por exemplo, se trata-se de um projeto de biologia, pode-se receber o acompanhamento de um biólogo, jardineiro ou médico para conversar e ajudar as crianças nas suas atividades. Assim as crianças não tem apenas o olhar dos educadores de sempre, mas recebem estímulos de pessoas com olhares diversos, formações e opiniões diferentes.

Especial também em Reggio é como o ambiente é preparado. Salas grandes, tudo muito aberto e claro. O material disponível às crianças é natural e reciclado. Tudo disposto de forma estética. Lembrem-se que Montessori já falava da importância da estética no trabalho com a criança. No material montessoriano há uma grande preocupação também com a estética. Só o que fosse estético e sem exageros poderia chamar a atenção da criança de forma positiva.

Reggio preza por diversas formas de iluminação, de formas de espelhos, na disposição de móveis. Tudo para contribuir para o desenvolvimento da fantasia e aguçar a curiosidade da criança para o mundo.

Em Montessori há a preocupação em um ambiente limpo, organizado, bonito e cheio de vida, com plantas, cores alegres, mas sem excesso que irrite a criança.

A organização do dia  reggiano é muito semelhante ao montessoriano na sua estrutura. Eu me arrisco a dizer que é idêntica: Círculo da manhã onde a criança tem a oportunidade de comunicar-se oficialmente com seu grupo inteiro, é o momento onde se fala sobre os planos do dia, sobre o dia anterior. Depois segue o que Montessori já chamava de “trabalho livre” individual ou em grupo através de projetos. Em Reggio: Projetos estes que podem ser realizados em praça pública por exemplo, com os moradores da cidade, treinando história e democracia.

Logo após o almoço, onde todos estão reunidos, chega a hora de descanso, trabalho livre ou hora de brincar dependendo da idade e da disposição da criança.

Fato é que embora Reggio esteja em bases montessoriana, eles desenvolveram seu próprio caminho, sua própria linguagem. Reggio não se vê como um modelo estático e muito menos que pode ser transportado com facilidade para qualquer sociedade do mundo. Reggio propõe reflexão e mudança constante!

Montessori deu as bases sólidas para a educação do futuro. Qualquer que seja o caminho: Reggio, escola da ponte ou modelo escandinavo. A base é a mesma, sempre chegamos em Montessori. Voltamos onde a criança é o centro, ela é a protagonista, o adulto é o acompanhante no processo de aprendizado e o meio preparado é o seu grande incentivador, o inspirador. Montessori mostrou que a criança nasceu para aprender e ser independente e que ela é feliz neste processo.

A primeira médica italiana estava já muito à frente de seu tempo e nos deixou sua maior herança nos alertando e mostrando que a criança é capaz, que  ela é completa na sua própria essência e que não necessita crescer para tornar-se, pois ela já é completa!

Simone Clemens, pedagoga montessoriana pela associação Montessori de Aachen/Alemanha e especialista em superdotação na infância e adolescência pela IFLW/Alemanha

Literatura e fontes de internet:

-Wolfgang, U. / Franz-J. Brackschnieder: Reggio-Pädagogik auf einem Blick, Einfürung für Kita und Kindergarten, Herder 2009 (3. Aufl.)

-Thesing, Theodor: Leitideen und Konzepte bedeutender Pädagogen, Lambertus 2014 (4. Aufl)

Enciclopédia online de psicologia e pedagogia http://lexikon.stangl.eu/5918/reggio-paedagogik/

-Entrevista com a tradulora-intérprete Thaís Bonini, que há anos trabalha com o grupo Reggio-Emília na Itália e na América do Sul.

Videos: www.youtube.com

“Die Frauen und die Schulen von Reggio-Emilia” (as mulheres e as escolas de Reggio Emília) parte 1 e 2

“Prof. Dr. Sabine Lingenbauer: Reggio-Emilia” (palestra no castelo)

“Der Raum ist der dritte Pädagoge”

“D-13- Conhecendo Reggio-Emilia”

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8 comentários em “A pedagogia Montessori e o modelo Reggio Emília”

  1. Bom dia! Estou me inserindo nesta proposta apenas um mês. É muito interessante a prática real. Trabalho ha muitos anos com a proposta construtivista sociointeracionista, e agora recebi uma oportunidade de conhecer e trabalhar numa nova proposta onde incorpora Montessori e Regio Emilia. Está sendo desafiador, estou gostando bastante, mas ainda tenho dificuldades para colocar no papel, o que quero compartilhar com as crianças, me sinto insegura, esta é a palavra que me define neste momento. Neste um mês, já estou recebendo muitas informações, houve duas formações na escola com um professor Paulo Fochi, que é um agente desta proposta em nosso estado, muito bom o trabalho dele, mesmo assim, ainda não consigo me definir. Estou em uma turma de berçário de 4 meses a 1 ano. Já conheci o trabalho dos cestos dos tesouros e estou amando. grata. Vera

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  2. E qual seria a diferença ou semelhança na fase de adaptação da criança na escola? Meu filho tem quase 4 anos e está começando numa escola Montessori, mas a adaptação está sendo difícil, principalmente por parte da escola que está muito rígida. Agradeço muito se puder responder. Abraço

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    1. Olá Francielle, seja bem-vinda. A adaptação de uma criança ainda pequena na escola mais depende da escola em si, das educadoras do que do método (Montessori /Reggio Emíia/, Waldorf…)em si.
      O que é rígido nesta escola? (Veja bem estou perguntando NESTA escola e não no método Montessori) Eu Não sei, pois não conheço a escola. Não sei no seu caso, na sua escola, como eles estão agindo com a sua criança. Existem mil possibilidades pelas quais a sua criança possa estar tendo dificuldades de adaptação. Posso garantir que não deve ter a ver com o método Montessori, mas com a escola em si/ com as educadoras, como elas vêem, qual a concepção delas sobre “período de adaptação” como a escola aplica, vive um período de adaptação. Ou o ponto pode estar na criança mesmo, com a situação psicológica dela. Mil possibilidades. Não sei se você me fala do Brasil (aqui me visitam pessoas de todo o mundo). Mas caso você esteja no Brasil, a maioria dos pedagogos não tem formação montessoriana de fato, é uma sorte quando possuem alguma noção, algum curso rápido. Montessori ainda é “música do futuro no país…”. Boa sorte.

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