Laudo de testes de QI (crianças e adolescentes)

checklist-1622517_1920Hoje vou falar sobre uma problemática que percebo no Brasil à respeito de como são escritos os laudos de testes de QI por profissionais de maneira geral.

Na minha área, como consultora sobre o tema superdotação para crianças e adolescentes, muitos pais vem a mim para que eu os ajude a “decifrar” o laudo (resultado) de teste de QI dos seus filhos. Com uma linguagem estritamente profissional, ou seja, que só os profissionais entendem, os pais se veem cheios de dúvidas, sem entender o que está escrito no teste de inteligência do próprio filho, teste este que eles mesmos pagaram uma fortuna para ser aplicado…

Quando eu “traduzo” o teste, a reação dos pais é de alívio. Uso o termo traduzir, por ser mesmo uma outra língua…:) e ainda sou humilde o suficiente para afirmar que alguns eu também tenho dificuldade em “decifrar”.

Me perdoem os profissionais que escrevem estes laudos. Percebo que por um lado é a linguagem clássica de se escrever laudos. O profissional psicólogo, neuropsicólogo, aprendeu na sua formação, o modo de escrever tais laudos e os escreve como aprendeu. Também é uma questão de credibilidade. Se ele não escrever desta forma, quase que incompreensível para pessoas comuns, ele pode passar aos olhos de outros colegas, como não profissional, como menos competente. Então mesmo que algum deles já tenha pensado neste ponto, ele prefere manter sua imagem de “competente” do que escrever de uma outra forma simples para o entendimento dos pais e professores/educadores.

O resultado disso é um problema sério, o qual os psicólogos ainda não percebem a dimensão.

Quando pais levam seus filhos para fazer um teste de QI com suspeita de superdotação, eles, em sua maioria, estão querendo não só saber se seu filho é superdotado, mas eles querem com este teste uma melhora da situação do seu filho na escola/jardim da infância.

Com um resultado positivo intitulado de “criança superdotada” os pais chegam na escola cheios de esperanças, que seu filho vá ter condições melhores, que vá finalmente ter seus anseios, suas necessidades especiais atendidas. A decepção infelizmente é enorme!!!

Primeiro que ainda hoje, a diretora, a professora têm seus clichés sobre o tema. Mas se mesmo com alguma vontade elas se propõe a entender o laudo oferecido pelos pais, continuam não entendendo o que quer dizer ser superdotado de fato. O laudo não esclarece ou até confunde. O que não é entendido, é ignorado  ou desprezado. Ao invés de ajudar, o teste passa a ser visto como problema, refletindo na criança.

Não digo de forma alguma que os profissionais não escrevam mais na sua linguagem acadêmica, a qual tem sim sua função. Esta linguagem acadêmica traz informações detalhadas, exatas, que podem ser importantes para uma reavaliação, reinterpretação, comparação com outros testes por um outro profissional em uma outra situação ou época.

Apenas tenho a esperança que os psicólogos se sensibilizem e reflitam o objetivo realcéu pelo qual este teste está sendo aplicado. Que reflitam quem vai ler este teste de imediato e que além da sua linguagem profissional, tentassem colocar em forma resumida e em uma linguagem mais acessível, os resultados principais. Caso contrário o real objetivo dos testes que ele está aplicando, não vai ter utilidade prática nenhuma! Acabam ficando dentro da pasta, guardados na gaveta. Os pais acabam por resolver seus problemas de outra forma, sem que o  documento tenha tido utilidade de fato.

O que eu sugiro então? Que escrevam a mais, mesmo que poucas linhas, o resultado prático, o que quer dizer ser um superdotado nestas áreas que a criança escreveu no teste ser superdotada. E se possível que dê algumas orientações gerais de como proceder com o aluno, vendo que pela anamnese o profissional está a par da problemática escolar da criança. A consulta, o esclarecimento depois do teste é essencial! O teste em si tem pouco significado sem uma explicação. Gostariam de um pequeno exemplo do que acontece hoje?

No teste de uma criança no jardim de infância:

A psicóloga escreve: “A criança apresentou capacidade de memória superior no teste X com poucas distorções de localização e forma…”

A educadora: “Não vejo nada disso, ela nunca se lembra de guardar seus lápis e muito menos o que eu peço pra ela, vai ver que é nestes pontos onde estão as distorções…” 🙂

 Aqui faltou explicar a professora/educadora que na dada idade, a memória excelente da criança funciona de forma mais intuitiva, que ela não consegue controlar como uma criança maior, ou como um adulto e que esta é focada em situação que a chame muito atenção. Somente em situações onde a criança realmente se interessa, ela consegue fazer uso deste potencial especial de memória. Para que a criança desenvolva este determinado potencial, há que ser criada situações de interesse da criança que proporcione a capacidade de memorização. (Se possível um exemplo pedagógico prático).

Outro exemplo: a psicóloga escreve: ” De acordo com o Teste de Habilidades a criança apresentou classificação superior em Habilidades Percepto-Motoras, Linguagem e Atenção concentrada.”

A educadora: “É quando ela quer, ela faz os exercícios bonitinho, mas normalmente não vejo tanta coordenação motora assim não, falar fala muito mesmo, mas esta atenção, concentração..aqui ela não presta atenção em nada,…” Superdotada?

Aqui faltou traduzir à professora/educadora o que significa habilidade percepto -motora, talvez ilustrar com um ou outro exemplo destas atividades e explicar sobre o possível desenvolvimento assíncrono acentuado do S. nas atividades motoras. Que por causa do desenvolvimento intelectual acelerado, a parte motora pode desenvolver-se mais lentamente, o que não significa que esta diferença entre intelecto e parte motora fiquem para sempre desniveladas, podendo haver um equilíbrio de ambos os aspectos naturalmente com o passar do tempo. Às vezes a criança não tem um aspecto motor tão bem desenvolvido para a idade, mas um outro sim. Pode ainda não ter uma caligrafia boa, mas ser um bom corredor. Se a anamnese da criança foi bem feita, ela tem algum exemplo prático relativo à criança a oferecer para a educadora.

No ponto linguagem, falar sobre o termo vocabulário avançado, rebuscado para a idade com 2 ou 3 exemplos…(se a professora até agora não havia percebido, ela passa a prestar mais atenção) e por último a questão da concentração altamente relacionada com a motivação da criança, principalmente nesta idade.

Essa explicação, “tradução”, infelizmente não acontece!

Ou seja, na prática o mundo da psicóloga é um, o mundo da escola é outro! A discrepância do resultado do teste e da realidade da professora é enorme. Isso faz com que a escola duvide do parecer dos psicólogos e não consiga ajudar a criança em questão.

Ou seja, o teste mostrou, mas não explicou, não esclareceu.

boy-159061_1280O professor sempre tenta extrair o resultado que ele lê no teste, e identificar com a realidade que ele vê no dia a dia com a criança. E acredite, no caso de discrepância entre as duas partes, ele vai acreditar muito mais na percepção dele, pois é ele que fica com a criança todos os dias, várias horas por dia.

Não estou aqui querendo colocar o professor/educador como pouco conhecedor, pelo contrário, o papel do professor não prevê saber ler e interpretar testes psicológicos tão pouco comuns. Os psicólogos é que tem que vir de encontro às reais necessidades dos testes por eles aplicados. Deveriam tentar preencher estas lacunas de desentendimento entre os laudos do resultado dos testes de inteligência e a escola. Eles é que são os intérpretes!

E por parte dos professores deve haver um maior empenho em trabalhar com os psicólogos conjuntamente para esclarecer dúvidas.

O pais devem cobrar mais explicações práticas dos profissionais que consultam, que aplicam testes em seus filhos, afinal pelo menos no Brasil o preço por uma consulta, pela aplicação de um teste de QI é salgadíssimo!

Simone Clemens, pedagoga Montessoriana pela Associação Montessori de Aachen/Alemanha e especialista em Superdotação na infância e adolescência pela IFLW/Alemanha.

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