Superdotado e baixo rendimento escolar 1

 

escolaSer altamente inteligente não quer dizer necessariamente ter ótimas ou sequer boas notas na escola.

Os pais geralmente percebem que o filho é inteligente ou “espertinho” para aprender desde muito cedo. Na pré-escola a educadora algumas vezes comenta com os pais que a criança é muito “viva”, está muito atenta a tudo apesar de: irrequieto, não parar na cadeira, perguntar em hora indevida, falar demais, olhar muito para a janela, perturbar o amiguinho, não ater-se a regras. Quando começa a fase escolar a professora também pode perceber que a criança tem pensamento rápido, porém, geralmente devido as más condições do sistema tradicional de ensino, que não lhe permite dar aos alunos uma atenção individual e a falta de informação sobre o tema superdotação, a professora começa a focar-se no mau comportamento do aluno, deixando o aspecto “inteligente” ou “esperto” de lado. A decepção da professora se vê perceptível quando a dita criança escreve notas baixas. “Eu sabia…comportando-se assim não aprende-se nada.” Na reunião de pais a frase comum é :” Ele realmente parece ser inteligente, esperto, poderia escrever melhores notas se quisesse…”

Se quisesse?

preocupadoSendo altamente inteligente, não se escreve notas boas porque não se quer? Normalmente não, o mais freqüente é que a criança/adolescente não escreva boas notas porque não consegue. Não consegue porque bloqueios psicológicos e/ ou sociais juntamente com a falta de técnicas de estudo o impedem de fazê-lo.

Este fenômeno, ser superdotado e não conseguir ter um bom desempenho escolar leva o nome de  Underchievement, sendo a criança/adolescente chamado de underachiever.

Segundo estudos dos centros de pesquisa da universidade de Münster na Alemanha, o número de underachievers é maior entre os meninos do que entre as meninas na proporção de 2:1 ou 3:1. Interessante também é saber que dentre crianças e adolescentes com um quociente de inteligência, QI, de 130 ou mais, o número de underachievers é de 11%.

Pais de alunos considerados underachievers costumam procurar mais ajuda do que pais de alunos superdotados que não são underachievers. Este dado é facilmente compreensível se tivermos em mente que um impedimento no desenvolvimento do potencial intelectual da criança/do adolescente pode acarretar distúrbios no seu comportamento em geral.

A problemática se agrava quando não se vê no distúrbio de comportamento da criança uma ligação com uma possível alta inteligência desta, procurando suas causas somente levando em conta a anomalia de comportamento da criança/do adolescente.

Como sempre, a generalização leva a erros. Nem toda criança que apresenta um distúrbio de comportamento é super inteligente,  assim como nem todos os superdotados  apresentam  distúrbio de comportamento.

Pelo contrário, somente uma pequena fração de superdotados apresentam distúrbio de comportamento.

Como reconhecer um underachiever?

O superdotado não nasce underachiever! O superdotado assim como toda criança tem o impulso natural de desenvolver seu potencial intelectual em toda sua plenitude. Para chegar ao ponto da criança/adolescente bloquear-se de tal forma que não consiga mais ativar seu potencial, esta criança foi vítima de muitas más experiências ao longo da sua  vida/vida escolar.  Uma vez chegado neste ponto, é realmente difícil reverter a situação, ativar novamente esta energia para o aprendizado, restabelecer sua motivação!

Para tentar reverter este processo, é preciso reconhecer características do underachievement em diversos níveis:

Principais características:

a) Nível de Desempenho:

Alto Potencial Intelectual

A criança apresenta pensamento rápido, faz perguntas interessantes, profundas, detalhadas, filosóficas, tem interesse por vários temas, muitos deles incomuns para sua idade e uma boa memória (não necessariamente para temas escolares). A criança/adolescente apresenta um bom resultado em testes de QI (caso esta ainda não se negue a fazê-lo).

 Baixo  Rendimento Escolar

Apesar das características acimas citadas a criança/adolescente não apresenta um bom rendimento na escola e se encontra a baixo da média da maioria da classe. Principalmente em situações de stress como provas, pequenas avaliações, escreve notas muito mais baixas do que poderia escrever de acordo com seu potencial intelectual.

Falta de Técnicas de Aprendizado:

É provável que esta criança/adolescente nunca tenha aprendido como aprender. É provável que ela nunca tenha passado por uma conscientização de como chegou a um resultado ou como chegou a memorizar determinado tema. Na maior parte da sua vida, este processo apenas aconteceu de forma espontânea, estava simplesmente lá. Até que com os anos  o tipo de tarefa exigisse uma técnica para ser resolvida (normalmente depois da primeira fase do ensino fundamenta 5°, 6° ano). Acostumado a não necessitar de técnica alguma, esta pessoa se nega a aprender a prestar atenção em como aprender. Com o passar do tempo a criança passa a não conseguir mais avaliar com segurança o seu poder de desempenho: “Quanto e como é preciso trabalhar para chegar a um resultado”. Devido a isso, ela pode por exemplo, começar a impor-se objetivos, os quais ela mesma não consegue cumprir, frustrando-se. Da frustração vem a falta de confiança em si mesmo. Está formado um círculo vicioso difícil de ser desfeito. A causa: falta de técnica de aprendizado.

Falta de Interesse por Tarefas escolares

A criança/adolescente tem um conceito negativo sobre tudo que se relacione com escola. Porém seus hobbys estão ligados na sua maioria a atividades intelectuais.

b) Nível Pessoal

Pouca estabilidade emocional:

A criança é medrosa e de emocionalidade instável.  Não aceitando críticas, sente-se pessoalmente atacada por elas, mesmo que estas sejam apontadas para seus atos e não para a sua pessoa.

Para defender-se a criança reage muitas vezes com agressão. Através da agressão ela reduz seu stress emocional. Ao reduzir seu stress emocional, sente-se melhor, voltando sempre a usar desta forma de comportamento.

Falta de Autoconfiança

A criança tem pouca autoconfiança. Ela tende a ver seus sucessos e fracassos como causa de fatores externos. Exemplo: quando escreve um bom trabalho na escola vê seu desempenho como sorte e quando vive uma situação de fracasso vê como perseguição  ou incompetência do professor.

Às vezes também vê seus fracassos escolares como espelho da sua falta de capacidade intelectual, o que afeta profundamente ainda mais sua autoconfiança.

A criança/adolescente não tem consciência, que ela mesma tem influência direta nos seus fracassos ou sucessos.

c) Nível Socialsó

Isolamento Social:

A criança/adolescente tem tão pouca autoconfiança, que não acredita que alguém possa sentir-se bem  a seu lado. Ela mesma acaba por não se gostar e com o passar do tempo, acha que ninguém é capaz de gostar dela também.

Sendo assim, reage com desconfiança e rejeição a qualquer contato com colegas. Como consequência, seus colegas espelham seu comportamento, formando-se o próximo círculo vicioso – o isolamento . A criança tem poucos amigos e estes são ainda superficiais.

Os pais, sem terem consciência deste processo,  acabam por apoiar este comportamento repetindo em casa que a criança é “assim mesmo”, que gosta de ficar sozinho. A situação pode-se agravar se a criança isola-se até da família.

Não respeitar regras:

A criança tem muita dificuldade em respeitar regras, tornado-se rebelde e imprevisível.

Distanciamento/reclusão em sala de aula

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Esta característica é mais típica de meninas. A criança isola-se na sala de aula, fala muito pouco com os professores  e com colegas. Seu comportamento é passivo, não se defende,  isola-se pintando, olhando pela janela, sonhando…

 

Tendências hipocondríacas:

É observado também dentro deste grande quadro geral destes superdotados, uma tendência para uma debilidade física, na maioria das vezes psicossomática e não raramente acompanhada de hiperatividade.

Acabamos de ver as principais características deste fenômeno. Mas quais seriam as principais causas?

Principais possíveis causas

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  • Falta de orientação e aceitação da família sobre o tema superdotação

Muitas famílias tem dificuldades em aceitar a superdotação dos filhos. Por motivos pessoais de insegurança, de medo do desconhecido tema, receio da alta responsabilidade de ter um filho com necessidades especiais, eles tentam reprimir o fato da superdotação. Estes pais tentam agir como se este fenômeno não existisse e não acontecesse com seu filho. Tentam criá-lo como se fosse exatamente como os outros, sem oferecer-lhes os meios necessários para seu especial desenvolvimento intelectual, sem levar em conta as tendências do filho, simplesmente ignorando tudo, fazem o possível para que esta “superdotação” desapareça! A criança/adolescente sente-se rejeitada!

Negar a superdotação da criança/adolescente é o mesmo que negar a criança/adolescente como pessoa, no seu mais profundo ser!

Outro erro comum é confundir o desenvolvimento intelectual da criança/jovem com o desenvolvimento emocional desta/e.

Estas crianças podem apresentar uma discrepância grande entre seu desenvolvimento intelectual e emocional. E se analisarmos somente seu desenvolvimento emocional vamos chegar a conclusão, que mesmo este último pode apresentar enormes diferenças. Estas discrepâncias apresentam-se muito acentuadas do que em crianças não superdotadas.

Exemplos: uma criança pode ter um desenvolvimento intelectual muito acima da sua idade cronológica e emocionalmente ser condizente com a sua idade. O adulto que convive com esta criança espera inconscientemente desta, atitudes condizentes com o seu desenvolvimento intelectual e vê-se frustrado quando constata o contrário, pensando que a criança está se comportando como mimada ou desaforada. Na verdade ela só está se comportando emocionalmente de acordo com a sua idade cronológica…o seu intelectual é que leva o adulto a confundir-se, a esperar dela um comportamento mais maduro.

A criança pode estar filosofando com um adulto sobre o sentido da vida, de onde viemos e para onde vamos quando deixarmos este mundo e de repente chorar porque não conseguiu amarrar os sapatos ou  porque ela não ganhou o pirulito da cor azul.

Estas enormes discrepâncias confundem os adultos profundamente e os fazem esperar destas crianças um comportamento emocional muito além do que ela está preparada. Este tipo de “pressão” inconsciente do adulto para com estas crianças pode causar nestas, sentimentos de rejeição e frustração.

  • Falta de incentivo intelectual  na escola e pouco preparo dos professores

A falta de incentivo intelectual nas escolas torna-se um problema grande. O aprendizado a passos iguais, a constante repetição , a falta de entendimento por perguntas mais inteligentes, inusitadas e profundas podem levar estas crianças/adolescentes a uma profunda frustração, causando grandes bloqueios psicológicos e distúrbios de comportamento.

  • Acontecimentos de vida muito marcantes

Acontecimentos muito marcantes na vida de uma criança/jovem como a morte de pessoa muito próxima, separação dos pais, que não são devidamente trabalhadas psicologicamente, podem levar a uma falta de autoconfiança e diminuir muito seu motivação em aprender.

  • Distúrbios físicos como dislexia, legastenia, discalculia

Distúrbios físicos como legastenia, discalculia podem influenciar muito negativamente a autoconfiança da criança, desmotivando-a no seu processo de aprendizado.

  • Constante pressão para se adaptar a maioria

Algumas crianças/adolescentes vem a necessidade de se mostrarem especialmente adaptados a maioria do seu grupo. Por exemplo: meninas ou grupos étnicos de minoria. Estas sentem-se momentaneamente mais confortáveis, quando aceitas e para isto comportam-se da maneira desejada pela maioria. Com o passar do tempo a pressão pode tornar-se tão grande, que uma vez explode por dentro.

Algumas destas crianças também tentam “esconder” suas altas habilidades para não parecer como muito estudioso, ser vítima de inveja ou isolamento social frente aos seus colegas, tendo como causa com o passar do tempo, um grande sentimento de frustração e rejeição para consigo mesmo.

Possíveis consequências do Underchievement

A consequência principal já é o processo em si, onde a pessoa não consegue concretizar, por em prática seu potencial intelectual. Unido a isto apresenta-se a falta de autoconfiança , diminuição do amor próprio, que em um contexto geral com o passar do tempo, pode desenvolver-se em uma série de distúrbios psicológicos como por exemplo:  anorexia, bulimia, automutilação, depressão, uso de entorpecentes  e até o suicídio.

Vendo sob outra perspectiva, todo tipo de problemática também está intimamente ligada a capacidade de resiliência da pessoa. Se esta pessoa conseguir ativar sua capacidade de resiliência, libertando-se deste ciclo vicioso, ela pode recuperar-se e reprogramar todo seu potencial. Um lindo exemplo é do alemão Rüdiger Gamm que considerado um típico underachiever por toda sua vida escolar, a ponto de não conseguir terminar o segundo grau, aos 21 anos descobre sozinho seu talento, tornando-se hoje um dos maiores campeões mundiais de memorização de cálculos matemáticos. Hoje além de ensinar técnicas de memorização pelo mundo todo, orienta pessoas (crianças, jovens e adultos) que necessitam de grande clareza intelectual em seu trabalho a entrar em harmonia consigo e a nunca desistir de si mesmo.

Como ajudar um underachiever?

001676A melhor forma de ajudar um superdotado é agir preventivamente para que ele não se torne um underachiever

Mas se infelizmente a criança/adolescente chega ao ponto de tornar-se um underachiever, a solução mais sensata é a psicoterapia com um profissional que entenda ou que pelo menos tenha noção do tema superdotação e o que este contexto pode trazer.  Caso esta condição seja impossível, já que pouquíssimos terapeutas tem formação neste tema, que este pelo menos esteja de acordo em trabalhar em conjunto com um especialista em superdotação.

Outra ferramenta importante para sair desta situação é o aprendizado e o treinamento de técnicas de estudo. Aprender como aprender!

Outro aspecto é o incentivo adequado da capacidade intelectual dentro e fora da escola. Na escola e complementar a escola. A conscientização dos professores sobre a problemática, trabalho com a gestão da escola, organização de atividades extra curriculares que permitam que o aluno se desenvolva intelectualmente de forma prazerosa.

Tentar promover encontros regulares  com crianças de capacidades intelectuais semelhantes, pois o ser humano sempre sente-se confortável, feliz quando em contato com pessoas com idéias e capacidades afins.

Esperança e muito amor!

Simone Clemens/ Pedagoga montessoriana pela associação Montessori de Aachen/Alemanha e especialista em superdotação na infância e adolescência/Alemanha

Bibliografia: Hochbegabtenberatung in der Praxis – Wittmann, Anna Julia; Holling, Heinz. 2004, 2. edição, editora Hogrefe

Underachiever – hochbegabte Problemkinder – Andreas Krenner

Hochbegabte Kinder, ihre Eltern, Ihre Lehrer – James T. Webb und Elizabeth A. Meckstroth

Train your Brain- Rüdiger gamm

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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6 comentários em “Superdotado e baixo rendimento escolar 1”

  1. Olá Simone, acabei de identificar minha filha muito com esse artigo. Eu te enviei um email há mais ou menos um mês. Eu gostaria de marcar uma consulta contigo pelo Skype para vocês conversar com minha filha.
    Um abraco
    Lilian

    Curtido por 1 pessoa

      1. Oi Simone, acabei de te reenviar os emails inclusive os antigos que você me respondeu. Assim você poderá se lembrar melhor do meu caso.
        Um abraco
        Lilian

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  2. Oi Simone, em que estado/cidade você atende por favor? Poderia enviar seu e-mail?
    Moro em Porto Alegre-RS e gostaria da sua orientação.
    Grata,
    Simone

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